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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Início da Atividade Agrícola

Analisando o livro de Hobsbawm, que trata da Revolução Industrial, lembrei-me de outra Revolução, bem mais antiga, mas não menos importante: a Revolução Agrícola.

Costumo dizer aos meus alunos que a "descoberta" da agricultura foi uma "revolução", no sentido de que mudou tudo na vida do ser humano ("revolução" não é somente com uso de armas, viu?). Observe a imagem abaixo:



Parece tão simples, não é? Mas o ato de descobrir que poderíamos "jogar" uma semente no chão, e com alguns cuidados, elas "germinariam", precisou de muito tempo de atenção e deduções, até que os seres humanos pudessem "viver" dessa "descoberta"...

Há 11 mil anos, já se plantava trigo e cevada no Oriente Médio; há 10 mil anos, plantavam-se batatas e feijões na América do Sul e milhete e arroz na Ásia Oriental. E, antes que você pergunte, a resposta é sim, nem todos conheciam todos os vegetais...

Podemos dizer que alguns vegetais serviram de "base" para a alimentação e o crescimento das populações. Isto quer dizer que, apesar de comer carne (caça e pesca) e vegetais colhidos (vegetais rasteiros, raízes, frutas, etc.), aos poucos, alguns alimentos foram se tornando "essenciais". Olhe a figura abaixo:



Essa é a tela Moça no Trigal, de Eliseu Visconti (1866/1944). Ela foi pintada em 1919, e retrata bem a importância do trigo, em nossa vida, a ponto de um pintor imortalizá-lo. O trigo serve de base para o pão, desde aquele que comemos no café da manhã, até aquele que é servido na hora da "comunhão", mais conhecido por hóstia, entre os católicos. Além disso, é de trigo que se faz o macarrão e todas as demais massas, que todos os povos apreciam, desde chineses até italianos e brasileiros...



Outro vegetal de grande importância é o milho. Ele já era consumido pelos ameríndios, os povos que viviam nas Américas antes da chegada dos europeus. Astecas, Maias, Incas e índios brasileiros se acostumaram a plantar seus milharais onde iam, e até na América do Norte, o primeiro Dia de Ação de Graças entre ingleses e indígenas teve milho como alimento principal. Dele se faz a farinha de milho, a tapioca, o cuscuz, o curau, o bolo de milho e de fubá e muitas outras iguarias, que muitos conhecem apenas nas Festas Juninas, hoje em dia...



O terceiro "grande alimento da humanidade" é o arroz, que começou a ser cultivado nos países do Oriente (China, Japão, Indonésia, etc.). De lá, o arroz se espalhou pelo mundo todo, passando a ser a base da alimentação de muitos povos. E se você acha que arroz só existe aquele, branco, da panela, é porque nunca provou bolinhos de arroz, ou um sushi, um risoto com frango ou uma paella (prato espanhol, uma espécie de "risoto" com frutos do mar), e muitas outras delícias...

No início do texto, falamos em "revolução", promovida pela agricultura. Logo detalharemos essa idéia. Mas, para você ir pensando no assunto, observe as duas imagens abaixo:



A primeira é típica do Período Paleolítico. Mostra um grupo de caçadores, que depende da caça (e da coleta) para poder conseguir o alimento...Provavelmente, não sobrava muito tempo para outras atividades...



A segunda, apesar de ser uma fotografia atual, representa a "Revolução Agrícola", do Período Paleolítico. Repare que a variedade de alimentos e bem maior, o que garante uma dieta mais rica. E, quanto ao tempo livre, falaremos depois...

sábado, 27 de novembro de 2010

A Revolução Industrial - Parte IV


Antes de continuarmos a síntese do livro "A Era das Revoluções", de Eric Hobsbawm, seria bom entendermos algumas definições, próprias da História Econômica:

Antes de mais nada, a economia consiste na produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Essa definição é simples, mas abrange todas as atividades econômicas, desde algo simples como pescar um peixe (produção) até a compra de uma roupa num shopping (consumo).
As sociedades antigas produziam bens para uso próprio, e não para vender a outros. O Capitalismo nasceu da noção de que podemos obter lucro se vendermos algo que foi produzido, criado ou conseguido/conquistado por nós, a outra pessoa.
Tudo que possa satisfazer nossas necessidades é chamado de bem. Um peixe frito ou uma camisa de tecido caro são bens.
Aí é que aparece uma pequena divisão: existem bens de capital e bens de consumo.
O peixe frito e a camisa cara são bens de consumo. Mas foram necessários outros instrumentos para se conseguir esses bens de consumo: a vara de pesca, a frigideira (para fritar o peixe), a máquina que colheu o algodão e a outra que o transformou em tecido, e ainda uma terceira que fez com que o tecido "virasse" uma camisa cara...Esses instrumentos são chamados de bens de capital.

E é nesse entendimento que entra o comentário de Hobsbawm:

É evidente que nenhuma economia industrial pode-se desenvolver além de um certo ponto se não possui uma adequada capacidade de bens de capital. Eis por que, até mesmo hoje, o mais abalizado índice isolado para se avaliar o potencial industrial de qualquer país é a quantidade de sua produção de ferro e aço.

Mas, por que ele começou essa parte do livro com essa explicação? Porque, diferente da produção dos bens de consumo, não existe um grande mercado para bens de capital, a não ser, como diz o autor, que haja uma "revolução em curso". Isto significa que você pode pescar 20 peixes, ou até comprá-los. Mas vai precisar de apenas uma frigideira para fritá-los. Então, o mercado de peixes (bens de consumo) tem mais procura e é mais rentável que o mercado de frigideiras (bens de capital).

A mudança começou a acontecer graças, primeiramente, ao carvão:

...o carvão tinha a vantagem de ser não somente a principal fonte de energia industrial do século XIX, como também um importante combustível doméstico, graças em grande parte à relativa escassez de florestas na Grã-Bretanha.

Em 1800, a Grã-Bretanha deve ter produzido perto de 10 milhões de toneladas de carvão, ou cerca de 90% da produção mundial. Seu competidor mais próximo, a França, produziu menos de um milhão.

É óbvio que esse carvão não era encontrado nas proximidades das cidades. Muitas vezes, era necessário ir buscá-lo em regiões distantes, e o transporte era difícil, pelas estradinhas de terra do interior inglês...É nesse momento que se criou uma solução, que acabaria por impulsionar ainda mais a Revolução Industrial:

Esta imensa indústria, embora provavelmente não se expandindo de forma suficientemente rápida rumo a uma industrialização realmente maciça em escala moderna, era grande o bastante para estimular a invenção básica que iria transformar as indústrias de bens de capital: a ferrovia.

A princípio, criaram-se trilhos e vagonetes para fazer o transporte do carvão do fundo das minas até a superfície. Mais tarde, começaram a ser criados trilhos que ligavam um ponto a outro, carregando esse carvão. E, para se começar a usar esses mesmos trilhos para transportar outras mercadorias, e até pessoas, foi apenas questão de tempo...

...os custos do transporte terrestre de grandes quantidades de mercadoria eram tão altos que provavelmente os donos de minas de carvão localizadas no interior perceberam que o uso desse meio de transporte de curta distância podia ser estendido lucrativamente para longos percursos.

O aumento do volume da produção de mercadorias e a necessidade de transportá-las, com rapidez, para os mercados consumidores, fizeram com que os empresários ingleses dessem apoio a George Stephenson (1781-1848), que apresentou sua primeira locomotiva em 1814.Foi o primeiro que obteve resultados concretos com a construção de locomotivas, dando início à era das ferrovias.

(http://www1.dnit.gov.br/ferrovias/historico.asp)

A linha entre o campo de carvão de Durham e o litoral (Stockton-Darlington 1825) foi a primeira das modernas ferrovias.

As primeiras pequenas linhas foram abertas nos EUA em 1827, na França em 1828 e 1835, na Alemanha e na Bélgica em 1835 e até na Rússia em 1837.

Foi uma rápida evolução e que serviu para acelerar ainda mais a Revolução Industrial. Até o século XIX, o principal meio de transporte era o barco e o navio, e a maioria das pessoas morava no litoral. A partir da invenção das ferrovias, as populações poderiam residir no interior, também. Essa é outra característica da Revolução Industrial, que foi conquistada pela ferrovia.

Nas primeiras duas décadas das ferrovias (1830-50), a produção de ferro na Grã-Bretanha subiu de 680 mil para 2.250.000 toneladas, em outras palavras, tripli- cou. A produção de carvão, entre 1830 e 1850, também triplicou de 15 milhões de toneladas para 49 milhões. Este enorme crescimento deveu-se prioritariamente à ferrovia, pois em média cada milha de linha exigia 300 toneladas de ferro só para os trilhos.

Em 1830 havia cerca de algumas dezenas de quilômetros de ferrovias em todo o mundo - consistindo basicamente na linha Liverpool-Manchcster. Por volta de 1840 havia mais de 7 mil quilómetros, por volta de 1850 mais de 37 mil.

Se uma outra forma de investimento doméstico podia ter sido encontrada - por exemplo, na construção - é uma questão acadêmica para a qual a resposta permanece em dúvida. De fato, o capital encontrou as ferrovias, que não podiam ter sido construídas tão rapidamente e em tão grande escala sem essa torrente de capital, especialmente na metade da década de 1840. Era uma conjuntura feliz, pois de imediato as ferrovias resolveram virtualmente todos os problemas do crescimento econômico.

Síntese: páginas 70 a 76 (continua)
Imagem: Locomotiva de Stephenson

A Era das Revoluções - Síntese 1


Até agora, o que podemos destacar do livro de Eric Hobsbawm, "A Era das Revoluções"?

"A primeira coisa a observar sobre o mundo na década de 1780 é que ele era ao mesmo tempo menor e muito maior que o nosso."

"A palavra "urbano" é certamente ambígua. Ela inclui as duas cidades européias que por volta de 1789 podem ser chamadas de genuinamente grandes segundo os nossos padrões - Londres, com cerca de um milhão de habitantes, e Paris, com cerca de meio milhão - e umas 20 outras com uma população de 100 mil ou mais: duas na França, duas na Alemanha, talvez quatro na Espanha, talvez cinco na Itália (o Mediterrâneo era tradicionalmente o berço das cidades), duas na Rússia, e apenas uma em Portugal, na Polónia, na Holanda, na Áustria, na Irlanda, na Escócia e na Turquia européia."

"Foi somente na década de 1830 que a literatura e as artes começaram a ser abertamente obsedadas pela ascensão da sociedade capitalista, por um mundo no qual todos os laços sociais se desintegravam exceto os laços entre o ouro e o papel-moeda (no dizer de Carlyle)."

"De fato, a revolução industrial não foi um episódio com um princípio e um fim. Não tem sentido perguntar quando se "completou", pois sua essência foi a de que a mudança revolucionária se tornou norma deste então."

"A América Latina veio realmente depender de importações britânicas durante as guerras napoleônicas e, depois que se separou de Portugal e Espanha, tornou-se quase que totalmente dependente economicamente da Grã-Bretanha, sendo afastada de qualquer interferência política dos seus possíveis competidores europeus."

"Em 1789, um ex-ajudante de um vendedor de tecidos, como Robert Owen, podia iniciar com um empréstimo de 100 libras em Manchester; por volta de 1809, ele comprou a parte de seus sócios nas fábricas de New Lanark por 84 mil libras em dinheiro vivo."

"Em 1830, a 'indústria' e a 'fábrica' no sentido moderno ainda significavam quase que exclusivamente as áreas algodoeiras do Reino Unido."

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Niépce

Quando falamos em "revolução industrial", logo pensamos em fábricas, operários, fumaça, produção em série...mas a indústria pode ter inúmeras faces, inúmeros inventores, inúmeras invenções...
Uma delas é a fotografia. Há muito tempo o ser humano tentava "congelar imagens", mas somente no século XIX é que conseguiu, e grande parte da conquista se deve a Niépce.

Nicéphore Niépce (nascido Joseph Niépce) nasceu em 1765 e faleceu em 1833. É dele a 'fotografia' mais antiga do mundo:

Vista da Janela de Le Gras (La cour du domaine du Gras) foi a primeira fotografia, tirada por Nicéphore Niépce , em 1826, em Saint-Loup-de-Varennes.
Niépce capturou a foto com uma câmera escura focada em uma folha de 20 × 25 cm tratados com betume de petróleo. Como resultado da exposição 8 horas, o sol ilumina os prédios dos dois lados.
Após uma viagem de sucesso na Grã-Bretanha para testar o interesse da Royal Society no processo, Niépce deu a foto para o botânico Francis Bauer. Sua última exibição pública foi em 1898, e depois foi esquecida.
Helmut Gernsheim trouxe a foto para o mundo mais uma vez em 1952 e a Eastman Kodak Company obteve uma cópia.
Em 1973, a Universidade do Texas, adquiriu a placa de Helmut Gernsheim.
Hoje, o prato está em exposição no Harry Ransom Humanities Research Center.
A "vista" está listada entre as "100 fotografias que mudaram o mundo"

Veja as "100 fotografias que mudaram o mundo - http://www.digitaljournalist.org/issue0309/lm01.html

A Revolução Industrial - Parte III


Na parte III do texto sobre a Revolução Industrial, Hobsbawm deixa claro que, a princípio, entendeu-se a Revolução Industrial como "revolução da indústria do algodão", pois foi ela que desempenhou, de maneira mais concreta, a concretização da idéia de "indústria".

"Em 1830, a 'indústria' e a 'fábrica' no sentido moderno ainda significavam quase que exclusivamente as áreas algodoeiras do Reino Unido."

Na verdade, haviam outras indústrias, como a de "alimentos e bebidas, cerâmica e outros produtos de uso doméstico", diz ele, mas "nenhuma se aproximava sequer remotamente do milhão e meio de pessoas empregadas diretamente na indústria algodoeira ou dela dependentes em 1833."

Fica bem claro, nesse trecho, como se deu o início da Revolução Industrial: com maquinário usado na produção de tecidos à base de algodão que, como relatamos anteriormente, inverteram o trajeto de mercadorias entre o Ocidente e o Oriente, pela primeira vez.

O resultado dessa mudança não poderia ser outro:

"Os produtos de algodão constituíam entre 40 e 50% do valor anual declarado de todas as exportações britânicas entre 1816 e 1848."

Mas essa época não foi apenas de crescimento desmedido, e glórias ininterruptas. Pelo contrário: o início da Revolução Industrial e a mudança na economia geraram uma crise que afetou a todos, e produziu trabalhadores revoltados, como os cartistas e os luditas:

"A exploração da mão-de-obra, que mantinha sua renda a nível de subsistência, possibilitando aos ricos acumularem os lucros que financiavam a industrialização (e seus próprios e amplos confortos), criava um conflito com o proletariado."

Se antes havia exploração, agora ela parecia mais aguda, mais visível. E quebrar máquinas, reclamar e fazer revoltas, mais do que nunca, parecia uma saída para os problemas...

"Os trabalhadores e a queixosa pequena burguesia, prestes a desabar no abismo dos destituídos de propriedade, partilhavam portanto dos mesmos descontentamentos. Estes descontentamentos por sua vez uniam-nos nos movimentos de massa do "radicalismo", da "democracia" ou da "república", cujos exemplares mais formidáveis, entre 1815 e 1848, foram os radicais britânicos, os republicanos franceses e os democratas jacksonianos americanos."

Já se conhecia, naquela época, o ciclo de crescimento e estagnação da economia ("ciclo comercial de boom e depressão") e a margem de lucro gerada pelo algodão era tranquilizadora, para os capitalistas. Mas, e talvez por isso mesmo, o que se comprimiam eram os salários:

"Eles podiam ser comprimidos pela simples diminuição, pela substituição de trabalhadores qualificados, mais caros, e pela competição da máquina com a mão-de-obra que reduziu o salário médio semanal dos tecelões manuais em Bolton de 33 shillings em 1795 e 14 shillings em 1815 para 5 shillings e 6 pence (ou mais precisamente, uma renda líquida de 4 shillings 1 1/2 pence) em 1829-34."

Síntese: Páginas 62 a 69 (continua)
Imagem: "Líder dos Ludditas", gravura de 1812

domingo, 7 de novembro de 2010

ENEM 2010 - Questão 11

Ontem ocorreu a primeira fase do ENEM 2010. Hoje, estava vendo as questões de Ciências Humanas e achei interessante postar essa, que ao meu ver, está de acordo com o que tenho postado aqui, no "História de R a Z".

A questão faz menção às três etapas pelas quais passou o "processo de transformação de matérias-primas em produtos acabados", como diz a questão.

Matéria-prima, como aprendemos lá no Primário (Ensino Fundamental Fase I) é tudo aquilo que encontramos na natureza: a fruta, o peixe, o minério, etc.
Desde o Neolítico, o ser humano aprendeu a "criar" os animais e "plantar" os vegetais, a fim de facilitar a obtenção dessas matérias-primas e consumí-las.
Mas, a agricultura e a pecuária forçaram o ser humano a viver num só local e em grupos. Assim, surgiram as primeiras aldeias, vilas e cidades.
E nem tudo que se produzia, consumia-se de maneira direta. Tinha-se que assar, salgar, temperar, fazer um preparo prévio, para que se pudesse obter o melhor da matéria-prima.
E deve ter sido nesse processo que surgiu o artesanato: seja para fazer objetos decorativos e/ou de culto, ou utensílios práticos, o ser humano foi aprendendo a produzir tudo de que necessitava, para deixar sua vida mais fácil e confortável...
Nos lugares mais frios, a lã deve ter servido para fazer roupas e cobertores, assim como as penas serviram para "rechear" cobertas que esquentassem mais. Onde havia minérios como o ferro, deve ter sido muito útil "inventar-se" armas e ferramentas, e onde tinha barro, vasilhas e potes devem ter facilitado a vida das pessoas...
Esse sistema de "transformação" chamou-se artesanato, e deve ter sido a forma utilizada durante milhares de anos, antes que se passa-se para uma nova fase...

A segunda fase foi chamada de "manufatura". Nessa fase, surgiram alguns dos elementos das fábricas modernas: juntar-se pessoas num mesmo lugar, com alguém "cuidando" do serviço (tempo e qualidade), e as matérias-primas já não pertenciam mais ao artesão. Eram compradas por alguém, que contratava os serviços deles, e depois revendia o resultado do trabalho. Essa pessoa passou a ter "lucro" com esse tipo de serviço, passou a ser chamado de burguês e era uma espécie de "patrão" dos artesãos. Eles, por sua vez, passaram a não ser donos mais do produto, ganhavam um "salário" e nem sempre sabiam fazer o produto por inteiro, e sim apenas uma parte dele. Dessa forma, ficavam dependentes do burguês...Mas ainda se trabalhava com as mãos e pequenas ferramentas...

A terceira e última etapa desse processo, é chamada de "maquinofatura". Nela, além de tudo que já vimos, incluiram-se as máquinas. A quantidade de produtos aumentou, o tempo passou a ser ainda mais rigorosamente controlado, e o lucro do burguês (também chamado de "capitalista") passa a ser cada vez maior. Agora, pessoas poderiam enriquecer apenas com a exploração das matérias-primas e dos trabalhadores, que já não sabem mais viver sem um salário e nem sabem fazer tudo de que precisam para viver...

Na questão do ENEM, fala-se do ARTESANATO. Então, as questões A, C e D estão erradas, pois falam em MÁQUINAS e a questão E está errada pois fala em TÉCNICOS, GERENTES e RITMO DE PRODUÇÃO.

A resposta certa é a B: "o artesanato trabalhava geralmente sem o uso de máquinas e de modo diferente do modelo de produção em série"

Imagem: Questão 11 do ENEM 2010 resolvida pelo Colégio Etapa

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Peste negra veio da Ásia há 2.600 anos

A doença, que matou milhões de europeus, chegou pela Rota da Seda

Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas

A peste bubônica, que matou milhões de pessoas na Europa, se propagou pelo mundo há mais de 2.000 anos a partir da Ásia. A descoberta acaba de ser feita por uma equipe internacional, que fez a reconstituição das sucessivas ondas epidêmicas através da História. Todos os dados foram recolhidos a partir de variedades de bactérias e de uma coleção única de outras 300 variedades. Foram elas que permitiram aos cientistas reconstituir a origem geográfica da doença, sua idade e a dispersão em várias epidemias. O estudo foi publicado no site da Nature Genetics.

Letal quando não tratada, a peste tem como agente infeccioso uma bactéria, a Yersinia pestit, cujo reservatório natural são essencialmente os roedores. A transmissão acontece por meio de picadas de pulgas. Segundo o Museu Nacional de História Natural/CNRS da França (MNHN), co-signatário do artigo (Thierry Wirth e Raphaël Leblois), os resultados apontam para o início da doença na China, há 2.600 anos.

Foi a partir desta região que a peste se dirigiu para a Europa ocidental. Para chegar até os países do velho continente, a bactéria usou um caminho conhecido e bastante utilizado à época: a Rota da Seda (iniciada há mais de 600 anos). Em seguida, migrou para a África, importada pelo navegador Zheng He no século 15, e, mais tarde, acabou se dirigindo para a América do Norte e Madagascar, no fim do século 19.

Pesquisa - Os dados moleculares permitiram reconstituir com uma precisão surpreendente a chegada da peste aos Estados Unidos via China e Havaí e sua propagação a partir dos portos de São Francisco e Los Angeles para o interior do território americano. Os trabalhos demonstraram sobretudo que o conjunto das sucessivas ondas epidêmicas partiu da Ásia Central e da China.

Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas, segundo o University College Cork (Irlanda). Alemanha, China, Grã-Bretanha, Madagascar e Estados Unidos também participaram das pesquisas.

(Com agência France-Presse)

Postado no Site da Revista Veja em 01/11/2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Ducado de Lancaster


Eduardo III (1312/1377) foi um dos mais famosos reis ingleses. Pertencente à Dinastia dos Plantagenetas (1154/1399), esse Rei provocou o início da Guerra dos Cem Anos (1337/1453) e teve 11 filhos, entre eles João e Edmundo, que deram origem às Famílias Lancaster e York.
João de Gaunt (1340/1399) foi o sexto filho de Eduardo III e nasceu na cidade belga de Gaunt. Em 1362, tornou-se Duque de Lancaster, ao se casar com sua prima, Branca de Lancaster. Teve início, assim, a Casa de Lancaster, cujo símbolo era uma rosa vermelha (figura).
Edmundo de Langley (1341/1402) foi o sétimo filho do Rei Eduardo III. Em 1385, ele foi feito Duque de York, cujo símbolo era uma rosa branca.

Os reis da Dinastia Plantageneta foram substituídos pelos Reis da Dinastia Lancaster, de 1399 a 1461. De 1461 a 1470, a Inglaterra foi governada por um York. Em 1470, voltaram ao poder os Lancaster, até 1471. Em 1471, voltaram os York, até 1485. Esse período de lutas e guerras entre Lancaster e York, ficou conhecido como "Guerra das Duas Rosas" (1455/1485).

João de Gaunt criou o Ducado de Lancaster (mapa), também conhecido como Lancashire. Foi essa região que se notabilizou, no início da Revolução Industrial como grande produtora e exportadora da lã inglesa, que acabaria dominando o mundo, e impulsionando a primeira fase da industrialização mundial...

A Revolução Industrial - Parte II


"...durante todo o período de que trata este livro, a escravidão e o algodão marcharam juntos."

Dessa forma, Hobsbawm define a segunda parte do capítulo reservado à Revolução Industrial.
Tecendo breves comentários sobre a escravidão, ele se aprofunda mais na questão algodoeira, e na criação de um "triângulo" entre a Inglaterra, as Américas e a Índia.
Em relação à questão algodoeira, o autor faz uma análise:

"O algodão, portanto, fornecia possibilidades suficientemente astronômicas para tentar os empresários privados a se lançarem na aventura da revolução industrial e também uma expansão suficientemente rápida para torná-la uma exigência. Felizmente ele também fornecia as outras condições que a tornaram possível."

Essas condições, segundo ele, se relacionam com a utilização de máquinas, criação de mercados consumidores e a "necessidade" de se consumir esses produtos, o que fez com que a indústria algodoeira crescesse enormemente.

"Os novos inventos que o revolucionaram - a máquina de fiar, o tear movido a água, a fiadeira automática e, um pouco mais tarde, o tear a motor - eram suficientemente simples e baratos e se pagavam quase que imediatamente em termos de maior produção."

Sobre a América Latina, Hobsbawm resume:

"A América Latina veio realmente depender de importações britânicas durante as guerras napoleônicas e, depois que se separou de Portugal e Espanha, tornou-se quase que totalmente dependente economicamente da Grã-Bretanha, sendo afastada de qualquer interferência política dos seus possíveis competidores europeus."

E sobre a Índia:

"A índia foi sistematicamente desindustrializada e passou de exportador a mercado para os produtos de algodão da região de Lancashire: em 1820, o subcontinente adquiriu somente 11 milhões de jardas; mas por volta de 1840 já adquiria 145 milhões."

E mais:

"Isto não era meramente uma extensão gratificante dos mercados de Lancashire. Era um grande marco na história mundial. Pois desde a aurora dos tempos a Europa tinha sempre importado mais do Oriente do que exportado para lá; porque havia pouca coisa que o Oriente necessitava do Ocidente em troca das especiarias, sedas, chitas, jóias etc. que lhe enviava. Os panos de algodão da revolução industrial inverteram pela primeira vez esta relação, que tinha até então se mantido em equilíbrio por uma mistura de exportações de lingotes e roubo."

Hobsbawm é claro quando relata essa inversão entre o Ocidente e Oriente, e a Inglaterra torna-se a primeira nação ocidental a exportar produtos para o Oriente, em maior quantidade que os que importava. Podemos quase afirmar que o Capitalismo começa a torna-se realmente mundial, a partir da indústria algodoeira.

Mas ainda haviam os chineses...

"Somente os auto-suficientes e conservadores chineses ainda se recusavam a comprar o que o Ocidente, ou as economias controladas pelo Ocidente, oferecia, até que entre 1815 e 1842 comerciantes ocidentais, auxiliados pelas canhoneiras ocidentais, descobrissem uma mercadoria ideal que podia ser exportada em massa da Índia para o Extremo Oriente: o ópio."

A China seria cada vez mais subjugada pelo mercado do ópio durante o século XIX, até a eclosão da Guerra do Ópio, mais adiante...

Um exemplo de empresário que enriqueceu com a indústria algodeira foi Robert Owen:

"Em 1789, um ex-ajudante de um vendedor de tecidos, como Robert Owen, podia iniciar com um empréstimo de 100 libras em Manchester; por volta de 1809, ele comprou a parte de seus sócios nas fábricas de New Lanark por 84 mil libras em dinheiro vivo."

Síntese: páginas 57 a 62 (continua)
Imagem: mulheres negras (escravas), passando roupas de linho e/ou algodão no século XVIII

terça-feira, 19 de outubro de 2010

As Dinastias Reais Inglesas


Um detalhe no texto de Hobsbawm chama a atenção:

"Mas as condições adequadas estavam visivelmente presentes na Grã-Bretanha, onde mais de um século se passara desde que o primeiro rei tinha sido formalmente julgado e executado pelo povo e desde que o lucro privado e o desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como os supremos objetivos da política governamental."

Esse parágrafo nos deixa claro que o fato de os ingleses julgarem e executarem um rei, foi importante para que a Revolução Industrial ocorresse. Vejamos o porquê...

Antes de mais nada, sabemos que a figura dos reis surgiu junto com as sociedades, seja no Oriente Médio, na Europa, na África ou mesmo na distante Ásia. Um monarca com poderes ilimitados poderia ser um rei ou um imperador, dependendo do tamanho do território por ele governado.
E esse monarca, muitas vezes, tinha poder de vida e morte sobre seus súditos, sendo que seus poderes se confundiam, muitas vezes, com os poderes de Deus. Assim, nada havia a se fazer, a não ser obedecer cegamente as ordens reais, mesmo as mais absurdas. E tentar algo contra o rei seria o mesmo que tentar algo contra Deus...

Na Inglaterra, como em muitos lugares, a situação não era diferente. Reis sucediam-se no trono inglês formando Dinastias, e determinando os rumos que os ingleses deveriam seguir.

Em 1066, Guilherme, o Conquistador, deu início à Dinastia Normanda. Os normandos eram descendentes de vikings, que se fixaram na Normandia (território francês). Em 1066, Guilherme saiu da Normandia, se dirigiu à Inglaterra, e conquistou aquele país, tornando-se o rei dos ingleses.
A Dinastia Normanda durou de 1066 até 1153. Nesse ano, foi nomeado Henrique Plantageneta como sucessor de Estêvão, o último rei normando.
A Dinastia Plantageneta durou de 1154 (com Henrique II) até 1399 (com Ricardo II). O último Rei foi deposto por seu primo, membro da Família Lancaster. Ele tornou-se Henrique IV.
Mas os Lancaster (cujo símbolo era uma rosa vermelha), tiveram que disputar o trono com os York (cujo símbolo era uma rosa branca). Essa disputa, conhecida como Guerra das Duas Rosas, somente teve fim em 1485, quando os Tudor chegaram ao poder, unindo as duas famílias rivais.

A Família Tudor foi a que mais promoveu avanços na economia inglesa, até então. Seus mmebros ficaram famosos por seus problemas familiares, também:

1) Henrique VII (1457/1509) - reestruturou o Reino, organizou os impostos e a marinha inglesa;
2) Henrique VIII (1491/1547) - criou a religião anglicana, casou seis vezes e foi sucedido por três filhos;
3) Eduardo VI (1537/1553) - primeiro monarca protestante da Inglaterra, morreu jovem;
4) Joana Grey (1537/1554) - prima de Eduardo VI, governou apenas 9 dias;
5) Maria I (1516/1558) - conhecida por "Bloody Mary", tentou restabelecer o catolicismo na Inglaterra;
6) Elisabeth I (1533/1603) - a época de seu governo ficou conhecida como "Era de Ouro", devido ao fato da economia avançar, nesse período.

Elisabeth I morreu sem deixar herdeiros, e foi sucedida por seus primos, da Família Stuart, por duas vezes: entre 1603 e 1649 (Jaime I e Carlos I) e depois entre 1660 e 1707 (Carlos II, Jaime II, Maria II, Guilherme III e Ana).

O Rei Carlos I (1600/1649), o segundo Rei Stuart, notabilizou-se por sua tirania e por não se entender com o Parlamento. Assim, em 1628, ele ordenou que o mesmo fosse fechado, permanecendo assim durante 11 anos.
Mas, em 1640, ele reabriu o Parlamento, para tentar forçá-lo a aprovar a criação de novos impostos. O que aconteceu, durante dois anos, foi uma disputa crescente entre o Rei e o Parlamento, que acabou gerando uma Guerra Civil.

Essa Guerra terminou com a execução do Rei, acusado de alta traição, e a criação da República da Inglaterra, governada por Oliver Cromwell (1599/1658).

Imagem: retrato do Rei Carlos I, pintado por Anthony van Dyck (1599/1641), em 1636.

A Revolução Industrial - Parte I


Após fazer uma análise do período em que ocorreu a "dupla revolução", Eric Hobsbawm se dedica, em seu livro, a analisar a Revolução Industrial. Ele justifica sua escolha pelo fato de que, apesar da Revolução Industrial só adquirir repercussão mundial depois de 1830, teve detalhes que antecederam a Revolução Francesa.

"Foi somente na década de 1830 que a literatura e as artes começaram a ser abertamente obsedadas pela ascensão da sociedade capitalista, por um mundo no qual todos os laços sociais se desintegravam exceto os laços entre o ouro e o papel-moeda (no dizer de Carlyle)."

Hobsbawm utiliza o termo "explodir", para se referir ao início dessa Revolução porque, segundo ele, foi dessa forma que tudo começou, antes mesmo do "assalto à Bastilha". Mas, na verdade, é difícil determinar-se um princípio e um fim para essa Revolução:

"De fato, a revolução industrial não foi um episódio com um princípio e um fim. Não tem sentido perguntar quando se "completou", pois sua essência foi a de que a mudança revolucionária se tornou norma deste então."

Dessa análise inicial, temos dois fatos incontestáveis: a) a Revolução Industrial teve início na Inglaterra; e b) ela ocorreu por volta da década de 1780, pouco antes da eclosão da Revolução Francesa.
Temos aí o lugar e a época em que teve início essa Revolução. Agora, é importante compreender como se deu a mesma.

Primeiramente, a Revolução Industrial não foi uma revolução científica pois, segundo o autor, os franceses estavam mais evoluídos nessas questões que os ingleses:

"O economista da década de 1780 lia Adam Smith, mas também - e talvez com mais proveito -os físiocratas e os contabilistas fiscais franceses, Quesnay, Turgot, Du-pont de Nemours, Lavoisier, e talvez um ou dois italianos. Os franceses produziram inventos mais originais, como o tear de Jacquard (1804) - um aparelho mais complexo do que qualquer outro projetado na Grã-Bretanha - e melhores navios."

Ele desmistifica a invenção de James Watt, a máquina a vapor (1784) que não exigiu nenhuma inovação no pensar, pois os conhecimentos necessários para essa invenção já existiam há tempos.

"Mas as condições adequadas estavam visivelmente presentes na Grã-Bretanha, onde mais de um século se passara desde que o primeiro rei tinha sido formalmente julgado e executado pelo povo e desde que o lucro privado e o desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como os supremos objetivos da política governamental."

Nesse trecho, o autor nos aponta dois motivos que levaram à Revolução Industrial, anteriores à própria invenção da máquina. O fato de um rei ser obrigado a submeter-se à lei, e o próprio governo estabelecer "lucro" e "desenvolvimento" como objetivos a serem alcançados, já nos mostra que os fatores nem sempre estiveram postos de maneira simplificada.
Os Decretos das Cercas (Enclosure Acts) também demonstraram que a mentalidade inglesa estava indo em direção oposta ao resto do continente, bem antes da Revolução se tornar visível, pois esses "cercamentos" acabaram forçando a migração de milhares de camponeses para as cidades, onde acabaram sendo aproveitados como mão-de-obra pelas nascentes indústrias.

"A agricultura já estava preparada para levar a termo suas três funções fundamentais numa era de industrialização: aumentar a produção e a produtividade de modo a alimentar uma população não agrícola em rápido crescimento; fornecer um grande e crescente excedente de recrutas em potencial para as cidades e as indústrias; e fornecer um mecanismo para o acúmulo de capital a ser usado nos setores mais modernos da economia."

Ou seja, como afirma Hobsbawm, logo adiante: "a política já estava engatada ao lucro". Essa singela frase nos mostra como foi (e é) importante haver uma mentalidade capitalista, na mudança de uma economia feudal para outra de cunho capitalista e industrial.

Outro detalhe importante foi a criação de uma indústria que se tornasse viável devido à sua necessidade, e a Inglaterra possuía essa indústria: a têxtil.

"...a dianteira no crescimento industrial foi tomada por fabricantes de mercadorias de consumo de massa - principalmente, mas não exclusivamente, produtos têxteis' -porque o mercado para tais mercadorias já existia e os homens de negócios podiam ver claramente suas possibilidades de expansão."

Tendo a máquina, a mentalidade, a mão-de-obra, a produção colonial de algodão (para a indústria têxtil) e o apoio governamental, a Inglaterra apenas teve que dar início a um processo que não fora planejado, mas que "explodiu" e não parou mais, até os dias de hoje...

Síntese: páginas 49 a 57 (continua)
Imagem: reconstiutição da máquina a vapor de James Watt, criada em 1784.

domingo, 10 de outubro de 2010

Inglaterra, Grã-Bretanha e Reino Unido

Para entendermos a diferença entre Inglaterra, Grã-Bretanha e Reino Unido, vamos utilizar diferentes bandeiras:

1) A primeira bandeira é a bandeira da Inglaterra. Ela é o símbolo daquele país desde a Idade Média e consiste na Cruz de São Jorge (vermelha) sobre fundo branco.Acredita-se que foi o Rei Eduardo III que oficializou São Jorge como patrono da Inglaterra, quando criou a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, em 1348.

2) a segunda bandeira é a de Santo André, padroeiro da Escócia. Segundo a lenda, Santo André foi crucificado em uma cruz em forma de X. Por isso é que sua cruz é um X e não a cruz tradicional. Ela foi adotada pelos escoceses em 1180, durante o reinado de Guilherme I. Em 1707, a Escócia foi anexada à Inglaterra, deixando de ser um Reino Independente. Mas a Union Flag já existia desde 1606, como nos mostra a figura.

3) a terceira cruz é a Cruz de São Patrício (ou Saint Patrick), padroeiro da Irlanda. Foi criada em 1783, como bandeira da Ordem de São Patrício. Em 1800, esse país se uniu à Inglaterra e Escócia, formando o Reino Unido.

4) a união das bandeiras de São Jorge, Santo André e São Patrício deu origem à Union Flag ou Union Jack, que é o nome dado à bandeira do Reino Unido da Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte.

* A bandeira do País de Gales não aparece na Union Jack;
** Grã-Bretanha é o nome da ilha onde ficam a Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Fonte de Pesquisa: http://peramblogando.blogspot.com/

O Mundo na Década de 1780 - III


Ainda detendo-nos na primeira parte do livro "A Era das Revoluções", de Hobsbawm, percebemos como, mesmo habitando em cidadelas provincianas, e conhecendo pouco do mundo, os homens de então ansiavam por um futuro promissor, onde não houvessem "amarras" visíveis ou invisíveis para o progresso. O texto do historiador faz-nos pensar em como deveriam ser esses homens, poucos em meio a uma multidão de milhões de pessoas que mal conheciam os arredores das cidades onde moravam...

Talvez, os que mais conhecessem lugares distantes fossem os soldados, que freqüentemente se encontravam em algum campo de batalha:

"...repetidos períodos de guerra geral: 1689-1713, 1740-8, 1756-63, 1776-83 e, chegando até o nosso período, 1792-1815."

Essas guerras tiveram nomes ou inimigos conhecidos: Revolução Gloriosa (1689 a 1713), Guerra da Sucessão Austríaca (1740 a 1748), Guerra dos Sete Anos (1756 a 1763) e Revolução Francesa (1792 a 1815). Na maioria dos casos, os países envolvidos foram Inglaterra e França.

Hobsbawm observa bem que, antes de ser conflitos entre nações, esses conflitos foram entre a "velha" e a "nova" ordem, entre a manutenção do que tinha então, e a luta pela chegada do novo. Inglaterra estava se modernizando desde a Revolução Gloriosa, e todas as lutas em que entrou, venceu. A única em que perdeu foi naquela em que a França se aliou aos EUA. Mas o resultado foi tão ou mais catastrófico para a França, visto que o apoio dado aos colonos provocou a Revolução Francesa...

Na última parte desse esboço sobre o mundo na época da "dupla revolução", Hobsbawm relata como a presença dos europeus ainda não era total, na África, no Oriente Médio e na Ásia. Mas, como ele mesmo lembra,

"Já então, a relativa fragilidade das civilizações não européias, quando confrontadas com a superioridade militar e tecnológica do Ocidente, era previsível. O que se chamou "a era de Vasco da Gama", ou seja, os quatro séculos da história do mundo em que um punhado de Estados europeus e de forças capitalistas européias estabeleceram um domínio completo, embora temporário - como é hoje evidente - sobre o mundo inteiro, estava para atingir seu clímax. A dupla revolução estava a ponto de tornar irresistível a expansão européia, embora estivesse também a ponto de dar ao mundo não europeu as condições e o equipamento para seu eventual contra-ataque."

Ou seja, o historiador nos dá o elemnto básico do que virá a seguir: Inglaterra e França promoveram a "dupla revolução" e, provavelmente, eram os únicos a possuir essas condições, no final do século XVIII e início do século XIX...

Síntese: páginas 46 a 48 (continua)
Imagem: Rei George III (1738/1820), pintado por Allan Ramsay (1713/1784).

sábado, 2 de outubro de 2010

Boulton, Watt e a Sociedade Lunar

Essa casa, na foto, é a Soho House. Ela foi projetada por Samuel Wyatt (1737/1807) em 1789, e pertenceu a Matthew Boulton (1728/1809).
Boulton era sócio de James Watt (1736/1819), na empresa Boulton & Watt, que durou mais de 120 anos (foi criada após a parceria dos dois, em 1775).

James Watt nasceu na Escócia, em 1736. Aos 18 anos, após a morte da mãe, dirigiu-se para Londres, a fim de estudar fabricação de instrumentos. Mas o clima londrino não lhe fez bem à saúde e em 1756 ele saiu da cidade, voltando à Escócia. Em 1758, com a ajuda de professores da Universidade de Glasgow, Watt teve condições de fazer experimentos com vapor, criando uma máquina a vapor em 1765.
Watt era patrocinado por Joseph Black e John Roebuck. Posteriormente, Roebuck faliu, e foi substituído por Matthew Boulton. Assim começou a parceria entre Watt e Boulton, que passaram a produzir máquinas a vapor para empresas. A primeira foi instalada em 1776. A sede era em Birminghan.

Na casa de Boulton, a Soho House, aconteceram muitas das reuniões da Sociedade Lunar.

A Sociedade Lunar foi um clube de discussão e sociedade científica informal composta por importantes industriais, filósofos naturais e inteletuais que se reuniam regularmente na cidade de Birmingham, Inglaterra, entre os anos de 1765 e 1813. Era inicialmente denominada "Círculo Lunar" até que em 1775 adotou o nome "Sociedade Lunar". Tal título remete ao fato de seus membros reunirem-se somente nos períodos de lua cheia, quando a maior luminosidade tornava o regresso para casa mais fácil e seguro na ausência de iluminação pública.

No endereço abaixo, você poderá ver a foto de uma estátua que fica no centro de Birminghan. Nela, estão representados Matthew Boulton, James Watt e William Murdoch (trabalhou com Boulton e Watt, em sua empresa).

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Boulton,_Watt_and_Murdoch_Statue,_Birmingham.jpg

O Mundo na Década de 1780 - II


No post anterior, observamos alguns detalhes sobre a década de 1780, segundo a ótica do historiador Eric Hobsbawm. Entre outros detalhes, ele destacou que o mundo, naquela época, "era ao mesmo tempo menor e muito maior que o nosso", analisou os meios de transporte e de comunicação, as cidades provincianas, os fisiocratas e as três "grandes regiões agrárias" em que o mundo se dividia.

Ele nos apresentou um mundo não muito diferente desse que temos hoje, visto que muitos dos elementos que o compõem, já estavam ali presentes. Mas, sendo que o assunto em questão é a "dupla revolução" que aconteceu naquele tempo, os detalhes convergem para a questão econômica. Podemos sintetizar a realidade da época numa pequena frase:

"...embora a mineração e a fabricação estivessem-se expandindo rapidamente em todas as partes da Europa, o mercador (e na Europa Oriental também muitas vezes o senhor feudal) é que continuava fundamentalmente a deter o seu controle."

Lembremos que a Europa Oriental ainda praticava as relações feudais, no século XVIII e, em muitos lugares, essas relações chegaram ao século XX. O diferencial estava surgindo na Europa Ocidental que, desde a Baixa Idade Média praticava, cada vez mais, o comércio. Esse comércio desenvolveu-se, entre os séculos XVI e XVIII, com o "empurrão dado pelas Grandes Navegações, e agora dependia não só do trabalho do camponês e do artesão, mas também das manufaturas, que também foram se desenvolvendo.
Apesar disso, nesse período que Hobsbawm analisa, o mercador (Europa Ocidental) e o senhor feudal (Europa Oriental) ainda detinham o "poder", o "controle".

A indústria ainda estava se desenvolvendo, e o industrial nada mais era que seu "gerente". Apenas na Inglaterra, já se observava "industriais de respeito", como Josiah Wedgwood (1730/1795, ceramista inglês, avô materno de Charles Darwin).
Os iluministas também enalteciam a figura do "self-made-man racional e ativo", sendo Benjamin Franklin (1706/1790, jornalista, editor, autor, filantropo, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata, inventor e enxadrista estadunidense) a personificação desse "novo homem" que estava surgindo.
Sociedades iam surgindo, com a finalidade de congregar esses homens de visão. Um exemplo que o autor cita é a Sociedade Lunar de Birminghan, que reuniu nomes como o próprio Wedgwood, James Watt (1736/1819, inventor da moderna máquina a vapor), Matthew Boulton (sócio de Watt), Joseph Priestley (1733/1804, "descobriu" o oxigênio), Erasmus Darwin (1731/1802, avô de Charles Darwin e escritor de diversos livros de medicina e botânica), John Baskerville (1705/1775, tipógrafo), entre outros.

Percebe-se que tanto na França (Voltaire, Montesquieu, Rousseau, etc.) como na Inglaterra (Darwin, Watt, Priestley, etc.), o espírito da época era o do empreendedorismo e o da diversificação de "dons": quase podemos imaginar esses notáveis senhores se reunindo, para debater idéias e "jogando os holofotes" (daí o "iluminismo") em seus pares, quando se destacavam em alguma atividade. O espírito da época impulsionava-os às descobertas, às invenções, à glória. Tendo dois avôs empreendedores, provavelmente não se esperava nada de Charles Darwin, a não ser a superação...

"Libertar o indivíduo das algemas que o agrilhoavam era o seu principal objetivo: do tradicionalismo ignorante da Idade Média, que ainda lançava sua sombra pelo mundo, da superstição das igrejas (distintas da religião "racional" ou "natural"), da irracionalidade que dividia os homens em uma hierarquia de patentes mais baixas e mais altas de acordo com o nascimento ou algum outro critério irrelevante. A liberdade, a igualdade e, em seguida, a fraternidade de todos os homens eram seus slogans."

Os iluministas se congregavam principalmente na Inglaterra e na França, e pertenciam à classe média. Mas, era seu desejo "libertar" todas as classes sociais, no que talvez fossem um tanto ou quanto românticos. Também pretendiam "construir" uma sociedade onde a "igualdade" e a "fraternidade" fossem a norma. Na verdade, como o próprio Hobsbawm analisa, essa ideologia era mais revolucionária que prática, pois mudanças desse porte nunca se fariam de maneira natural. Não é por acaso que "liberdade, igualdade e fraternidade" tenham se tornado o lema da Revolução Francesa.
O desejo por progresso era crescente, e a "reforma da sociedade" como ela se apresentava, logo seria uma necessidade, para esses homens.

O "ancien règime" ("antigo regime") até tentou se "adaptar" aos novos tempos, ou até mesmo adaptá-los a si, na figura dos "déspotas esclarecidos". Mas, mesmo com toda boa vontade, esse sistema ainda era mais aprecido ao "ancien régime" do que ao que se esperava, em termos de progresso, de um governo "iluminista".

"Naquela época, os príncipes adotavam o slogan do "iluminismo" do mesmo modo como os governos de nosso tempo, por razões análogas, adotam slogans de "planejamento"; e, como em nossos dias, alguns dos que adotavam slogans em teoria muito pouco fizeram na prática, e a maioria dos que fizeram alguma coisa estava menos interessada nas idéias gerais que estavam por trás da sociedade "iluminada" (ou "planejada") do que na vantagem prática de adotar os métodos mais modernos de multiplicação de seus impostos, riqueza e poder".

Pelo que podemos observar, esses déspotas eclarecidos nada mais eram que monarcas que sentiram que a situação estava mudando, e que deveriam fazer algo para que não se mudasse tanto. Mas, assim como os senhores feudais, a nobreza e a Igreja, eles eram representantes de um sistema que já não satisfazia esses "novos homens" que estavam surgindo...

"A monarquia absoluta, apesar de teoricamente livre para fazer o que bem entendesse, na prática pertencia ao mundo que o iluminismo tinha batizado de féodalité ou feudalismo, termo mais tarde popularizado pela Revolução Francesa."

Fechando essa análise, Hobsbawm cita três "inimigos" dos monarcas de então:

"O que tornou estes regimes ainda mais vulneráveis foi que eles estavam sujeitos a pressões de três lados: das novas forças, da arraigada e cada vez mais dura resistência dos interesses estabelecidos mais antigos, e dos inimigos estrangeiros."

* Síntese: páginas 39 a 45 - Continua
* Imagem: Retrato de Benjamin Franklin (EUA), pintado por Joseph Duplessis (1725/1802), em 1778.

domingo, 19 de setembro de 2010

Caetano Veloso - London London

videoEm 1969, a Ditadura Militar expuslou os cantores Caetano Veloso (1942/) e Gilberto Gil (1942/) do Brasil, sendo que os dois se exilaram na Inglaterra. Foi nessa fase que Caetano Veloso compôs "London London":

I'm wandering round and round, nowhere to go
I'm lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know I know no one here to say hello
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I'm wandering round and round, nowhere to go
While my eyes go looking for flying saucers in the sky (2x)
Oh Sunday, Monday, Autumn pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them
It's good at least, to live and I agree
He seems so pleased, at least
And it's so good to live in peace
And Sunday, Monday, years, and I agree

While my eyes go looking for flying saucers in the sky (2x)
I choose no face to look at, choose no way
I just happen to be here, and it's ok

Green grass, blue eyes, grey sky (2x)
God bless silent pain and happiness
I came around to say yes, and I say

While my eyes go looking for flying saucers in the sky

TRADUÇÃO

Londres, Londres
Estou vagando, dando umas voltas, sem direção
Estou solitário em Londres, Londres é amável assim
Cruzo as ruas sem medos
Todo mundo deixa o caminho livre
Sei que não conheço ninguém aqui prá dizer olá
Sei que eles deixam o caminho livre
Estou solitário em Londres, sem medos
Estou vagando, dando umas voltas, sem direção
Enquanto meus olhos Saem procurando discos voadores pelos céus
Oh Domingo, segunda, Outono, passam por mim
E as pessoas passam apressadas com tanta paz
Um grupo chega a um policial
Ele parece tão satisfeito em poder atendê-los
É bom pelo menos estar vivo e eu concordo ...
Ele parece tão satisfeito, pelo menos
E é tão bom viver em paz
E Domingo, segunda, os anos, e eu concordo ...

Enquanto meus olhos saem procurando por discos voadores no céu
Não escolho nenhum rosto para olhar, não escolho caminho
Acontece apenas de eu estar aqui e estar tudo bem

Grama verde, olhos azuis, céu cinza
Deus abençoe a dor silenciosa e a felicidade
Eu vim para dizer sim e digo

Enquanto meus olhos Saem procurando por discos voadores no céu

Londres & Paris

Muitas vezes, para entendermos a História, temos que nos apoiar em outras ciências. Uma delas é a Geografia.
Não sei vocês, mas eu não consigo visualizar um texto histórico (e eu adoro visualizar) sem ter um mapa para me apoiar. Por isso, uso muito os mapas e, atualmente, também o Google Maps, essa ferramenta fantástica, que nos permite compreender melhor o mundo em que vivemos, geograficamente falando.
Essa imagem que postei aqui mostra um pedacinho da Europa, mais precisamente a Europa Ocidental, onde podemos ver pelo menos cinco capitais européias: Londres (Inglaterra), Paris (França), Bruxelas (Bélgica), Amsterdan (Holanda) e Luxemburgo (Luxemburgo).
Duas delas, Londres e Paris, são das que mais se ouve falar, aqui no Brasil. Muitos brasileiros moram em Londres e Paris, ou já visitaram ao menos uma delas. E as duas possuem diversas famas, como cidades de primeiro mundo, centros onde tudo acontece.
Mas, e como essas cidades chegaram a ter essa fama?
Londres se chamava Londinium e foi fundada pelos romanos, no ano 43 da Era Cristã.
Paris é mais antiga: os gauleses da tribo dos parisii criaram Oppidum em 300 a.C. e, mais tarde, essa vila foi chamada de Lutetia e finalmente Paris (de Parisii).

De uma forma ou de outra, Londres e Paris tiveram a ver com os romanos. Depois, outros povos vieram viver nessas regiões: os anglos e os saxões (Inglaterra) e os francos (França). Foram esses povos que marcaram a formação cultural desses países e dessas cidades. Para nós, brasileiros, a língua francesa soa parecida, porque o português, assim como o francês, possuem elementos da língua latina, falada pelos romanos. O inglês não possui essa semelhança...

Tanto Londres como Paris não possuem praias, pois ficam distantes do litoral, como você pode ver na foto de satélite. Londres fica numa ilha (Grã-Bretanha) e Paris fica no continente europeu. Para chegar de um local a outro, é necessário que se atravesse o Canal da Mancha (em azul). Mas, desde 1994, essa travessia ficou mais fácil, com a construção do Eurotúnel, que liga Coquelles (França) a Cheriton (Inglaterra).

E é nesse pedacinho da Europa que Eric Hobsbawm situou seu livro "A Era das Revoluções". É óbvio que a Revolução Industrial não aconteceu somente em Londres e nem a Revolução Francesa ficou isolada em Paris. mas, como centros administrativos das duas nações, provavelmente foram dessas duas cidades que se irradiaram as notícias ( e mudanças) que atingiram o mundo todo...

O Mundo na Década de 1780 - I

Como era o mundo no século XVIII, mais precisamente na década de 1780? O historiador Eric Hobsbawm parece ter feito essa pergunta, ao começar o livro "A Era das Revoluções", sendo que o primeiro capítulo, da primeira parte, chama-se justamente "O Mundo na Década de 1780".
Ele começa o texto com uma afirmação:

"A primeira coisa a observar sobre o mundo na década de 1780 é que ele era ao mesmo tempo menor e muito maior que o nosso."

Ele explica essa afirmação pelo fato de que, em fins do século XVIII, conhecia-se muito pouco do mundo. É certo que já se haviam descoberto todos os continentes, inclusive a Oceania. Mas por outro lado, esse mundo era pouco conhecido, sendo que as pessoas viviam principalmente no litoral, e haviam poucos mapas. Esse mundo de então, além de "menor", era menos povoado que hoje, tendo cerca de um terço da população atual. E essa população, além de tudo, era menor no sentido literal da palavra, pois eram comprovadamente mais baixos que as pessoas de hoje.

Por outro lado, esse mundo era "maior" que o atual, se formos pensar nas dificuldades que as pessoas tinham, para se locomover e se comunicar:

"...para a grande maioria dos habitantes do mundo as cartas eram inúteis, já que não sabiam ler, e o ato de viajar - exceto talvez o de ir e vir dos mercados - era absolutamente fora do comum."

A maior parte do transporte de mercadorias e pessoas era feito por água (salgada e doce). Então, era mais fácil ir-se de Londres a Lisboa (por mar) que de Londres a Edimburgo (por terra). Se levarmos em conta as regiões onde chovia muito, deixando estradas enlameadas, a dificuldade aumenta. E o sistema de comunicações não era muito melhor, visto que as cartas e documentos viajavam nesses navios e carruagens. Mas, para quem se escreveria?

"A noticia da queda da Bastilha chegou a Madri em 13 dias; mas em Péronne, distante apenas 133 quilómetros da capital francesa, "as novas de Paris" só chegaram no final do mês."

Segundo Hobsbawm, a maioria das pessoas que viveu naquela época, cresceu e morreu sem ter saído de sua região, e até mesmo os "desbravadores" não conheciam tudo, visto que também eram limitados por diversos fatores, desde a dificuldade para se locomover até a existência de povos inimigos e até mesmo hostis no caminho.
Até mesmo os movimentos migratórios, tão comuns hoje em dia, eram inexistentes então. Sair de sua região e ir para outra não era algo comum, que a maioria das pessoas fizesse.
Na verdade, nem havia como ter grandes movimentos migratórios, visto que a população européia, principalmente, nem sequer vivia em grandes concentrações. A maioria da população era basicamente rural, vivendo longe dos grandes centros, que nem eram tão grandes assim.

"A palavra "urbano" é certamente ambígua. Ela inclui as duas cidades européias que por volta de 1789 podem ser chamadas de genuinamente grandes segundo os nossos padrões - Londres, com cerca de um milhão de habitantes, e Paris, com cerca de meio milhão - e umas 20 outras com uma população de 100 mil ou mais: duas na França, duas na Alemanha, talvez quatro na Espanha, talvez cinco na Itália (o Mediterrâneo era tradicionalmente o berço das cidades), duas na Rússia, e apenas uma em Portugal, na Polónia, na Holanda, na Áustria, na Irlanda, na Escócia e na Turquia européia."

Mas se engana quem acha que não houvessem inúmeras cidades na Europa. Elas apenas não eram populosas, mas tinham todas as características de uma pequena cidade do interior, desde governo e religião, órgãos públicos, mercados e toda sorte de atividades e problemas que possui uma cidade provinciana.

"A cidade provinciana ainda pertencia essencialmente à sociedade e à economia do campo. Além de se refestelar sobre os camponeses vizinhos, ocupava-se (relativamente com poucas exceções) de muito pouco mais, exceto de lavar sua própria roupa. Suas classes média e profissional eram constituídas pelos negociantes de trigo e de gado, os processadores de produtos agrícolas, os advogados e tabeliões que manipulavam os assuntos relativos ao patrimônio dos nobres ou os intermináveis litígios que são parte integrante da vida em comunidades proprietárias de terras, os empresários mercantis que exploravam os empréstimos aos fiandeiros e tecelões dos campos, e, por fim, os mais respeitáveis representantes do governo, o nobre e a Igreja."

Percebe-se, por este trecho, que a maioria das cidades provincianas de então, dependia economicamente da zona rural. Era ela que movimentava a cidade, em todos os sentidos.

"O problema agrário era portanto o fundamental no ano de 1789, c é fácil compreender por que a primeira escola sistematizada de economistas do continente, os fisiocratas franceses, tomara como verdade o fato de que a terra, e o aluguel da terra, era a única fonte de renda líquida."

Assim, do ponto de vista da economia agrária, Hobsbawm "dividiu" o mundo conhecido em três grandes regiões:

1) As Américas, onde a maioria das fazendas, haciendas, estâncias, eram povoadas por poucos europeus que comandavam, e por inúmeros índios, negros e mestiços, que trabalhavam, geralmente em regime de escravidão, para plantar "açúcar, em menos quantidade o café e o tabaco, tintas e, a partir da revolução industrial, sobretudo o algodão";

2) O Leste Europeu, chamado de "região de servidão agrária". Essa região incluía a Turquia européia, os Balcãs, o norte da Itália, a região do Báltico, a Rússia e a Espanha, entre outros. Ali, praticava-se uma economia praticamente feudal, com camponeses sendo explorados por proprietários de terra de origem nobre. Nessa região, "a agricultura servil produzia basicamente culturas de exportação para os países do Ocidente: trigo, fibra de linho, cânhamo e produtos florestais usados principalmente na fabricação de navios";

3) "Somente algumas áreas levaram o desenvolvimento agrário mais adiante, rumo a uma agricultura puramente capitalista. A Inglaterra era a principal delas. Lá, a propriedade de terras era extremamente concentrada, mas o agricultor típico era o arrendatário com um empreendimento comercial médio, operado por mão-de-obra contratada."

O mundo estava prestes a mudar, mas a maioria das pessoas não percebia isso, visto que o foco da mudança, a região da Inglaterra e da França, ainda era pequeno, em relação ao todo. E, mesmo que os fisiocratas franceses não estivessem de todo certos, foram as mudanças na economia agrária que permitiram essa mudança.

"Tecnicamente a agricultura europeia era ainda, com exceção de algumas regiões adiantadas, duplamente tradicional e assustadoramente ineficiente. Seus produtos eram ainda os tradicionais: centeio, trigo, cevada, aveia e, na Europa Oriental, trigo sarraceno (alimento básico da população), gado de corte, cabras e seus laticínios, porcos e aves, uma certa quantidade de frutas e legumes, vinho, e algumas matérias-primas industriais como a lã, a fibra de linho, cânhamo para cordame, cevada para a produção de cerveja etc. A alimentação da Europa era essencialmente regional. Os produtos de outros climas eram ainda raridades próximas do luxo, exceto talvez o açúcar, o mais importante alimento importado dos trópicos e cuja doçura provocou mais amargura humana do que qualquer outro."

* Síntese: páginas 23 a 38 - Continua
* Imagem: Retrato do Rei Luís XVI (França), pintado por Antoine-François Callet (1741/1823), em 1788.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Era das Revoluções

O livro "A Era das Revoluções" foi escrito por Eric Hobsbawm em 1962, e faz uma análise do período histórico compreendido entre 1789 e 1848, que ele chama de "dupla revolução" (referência às revoluções na França e na Inglaterra).

Este livro traça a transformação do mundo entre 1789 e 1848 na medida em que essa transformação se deveu ao que aqui chamamos de "dupla revolução": a Revolução Francesa de 1789 e a revolução industrial (inglesa) contemporânea.

Na Introdução, Hobsbawm já mostra algumas das mudanças que o mundo sofreu, após essa "dupla revolução":

As palavras são testemunhas que muitas vezes falam mais alto que os documentos. Consideremos algumas palavras que foram inventadas, ou ganharam seus significados modernos, substancialmente no período de 60 anos de que trata este livro. Palavras como "indústria", "industrial", "fábrica", "classe média" ', "classe trabalhadora", "capitalismo" e "socialismo". Ou ainda "aristocracia" e "ferrovia", "liberal" e "conservador" como termos políticos, "nacionalidade", "cientista" e "engenheiro", "proletariado" e "crise" (econômica). "Utilitário" e "estatística", "sociologia" e vários outros nomes das ciências modernas, "jornalismo" e "ideologia", todas elas cunhagens ou adaptações deste período *. Como também "greve" e "pauperismo".

Segundo ele, essa foi a "maior transformação da história humana desde os tempos remotos quando o homem inventou a agricultura e a metalurgia, a escrita, a cidade e o Estado."

Mas ele também lembra que essa "dupla revolução" não foi geral, e sim específica:

A grande revolução de 1789-1848 foi o triunfo não da "indústria" como tal, mas da indústria capitalista; não da liberdade e da igualdade em geral, mas da classe média ou da sociedade "burguesa" liberal; não da "economia moderna" ou do "Estado moderno", mas das economias e Estados cm uma determinada região geográfica do mundo (parte da Europa e alguns trechos da América do Norte), cujo centro eram os Estados rivais e vizinhos da Grã-Bretanha e França.

Hobsbawm procura explicar o porquê dessa região ter reunido as características necessárias para realizar essa "dupla revolução", e talvez esse seja o ponto principal do livro, visto que a compreensão dos antecendentes torna mais fácil a visualização dos fatos marcantes...

O livro se divide em duas partes:

I - Evolução

a) O Mundo na Década de 1780
b) A Revolução Industrial
c) A Revolução Francesa
d) A Guerra
e) A Paz
f) As Revoluções
g) O Nacionalismo

II - Resultados

a) A Terra
b) Rumo a Um Mundo Industrial
c) A Carreira Aberta ao Talento
d) Os Trabalhadores Pobres
e) A Ideologia Religiosa
f) A Ideologia Secular
g) As Artes
h) A Ciência
i) Conclusão: Rumo a 1848

Eric Hobsbawm


Eric John Earnest Hobsbawm nasceu em Alexandria (Egito), em 1917. De nacionalidade britânica e ascendência judia, Eric viveu parte de sua vida em Viena (Áustria) e Berlim (Alemanha). Após perder seus pais, foi viver com seus tios em Londres (Inglaterra), em 1933, formando-se em História pela Universidade de Cambridge. Fluente em quatro idiomas, Hobsbawm fez parte da inteligência no exército britânico, durante a Segunda Guerra Mundial (1939/1945).

Foi membro do grupo de historiadores marxistas britânicos, como Christopher Hill, Rodney Hilton e Edward Palmer Thompson que, nos anos 60, diante da desilusão com o estalinismo, buscaram entender a história da organização das classes populares em termos de suas lutas e ideologias, através da chamada "História Social".

Eric Hobsbawm procurou analisar a história dos trabalhadores e os diversos aspectos que a envolvem, em quatro obras importantes:

1) A Era das Revoluções (1789/1848);
2) A Era do Capital (1848/1875);
3) A Era dos Impérios (1875/1914);
4) A Era dos Extremos (1917/1991).